O meu nome é Teresa Isabel, sou de Vila Nova de São Bento e estou na casa dos cinquenta e tal anos. Gosto de iogurtes gregos com pedacinhos de frutos e de pudim de ovos. O meu gosto por funerais começou ainda na adolescência quando a minha avó morreu e eu adorei e ri no velório até às lágrimas. Depois morreu-me o gato, o Tareco, e deixei-o apodrecer no quintal só para me rir durante uns meses. A partir daí não houve uma pessoa na aldeia a arredores que morresse e eu não fosse ao funeral. Para mim ir a um funeral é como ir a um festival de Verão com a diferença que não se pode beber e fumar drogas na igreja. Em toda a cerimónia fúnebre gosto dos choros, dos gritos, das coroas de flores e dedicatórias e sobretudo das pessoas que dizem bem dos falecidos mesmo que eles tenham sido uma peste em vida: “aiii, era tão boa pessoa!”. Será que as pessoas têm medo de ser assombradas pelos mortos se disserem que elas de facto não valiam um copo de água? A meu ver o momento mais importante da minha vida vai ser a minha morte. Às vezes ponho-me a pensar como será o meu funeral! Só no Facebook tenho mil duzentos e trinta e quatro amigos o que me leva a crer que vou ter um dos maiores cortejos fúnebres de sempre na nossa aldeia. Projectos para o futuro? Assistir a mais de cem mil funerais até ao fim da minha carreira, o mesmo que dizer até morrer.
Crónica de Ivan Valério: A alegria dos funerais
